As 7 doenças silenciosas que o seu cão pode estar a sofrer sem que dê por isso
O seu cão não lhe consegue dizer "dói-me aqui". E mesmo que tentasse, provavelmente não o faria. A natureza programou-o para esconder a sua dor como mecanismo de sobrevivência. O que para nós é um sinal de alarme inequívoco, para eles é uma fraqueza que lhes poderia custar a vida na natureza.
Como donos responsáveis, conhecer estas doenças silenciosas é a diferença entre detetar um problema a tempo ou descobri-lo quando já é tarde demais.

1. Porque os cães escondem a dor
Antes de falar de doenças concretas, é preciso entender uma verdade fundamental: os cães são mestres do disfarce.
Este comportamento tem raízes evolutivas profundas. Na natureza, um animal que mostra sinais de dor ou fraqueza torna-se um alvo fácil para predadores ou rivais. Também corre o risco de ser deslocado da sua matilha. Por isso, os canídeos desenvolveram a capacidade de ocultar o mal-estar até que este se torne insustentável.
Dado chave: Segundo estudos de etologia canina, um cão pode mostrar dor evidente apenas quando o limiar de desconforto atinge entre 60-80% da sua capacidade máxima de suporte. Para então, a doença costuma estar avançada.
Que sinais subtis devemos procurar?
| O que pode parecer... | Na realidade pode ser... |
|---|---|
| "Tornou-se calmo" | Letargia por dor crónica |
| "Já não salta para o sofá" | Dor articular ou displasia |
| "Está mais rabugento" | Irritabilidade por desconforto constante |
| "Bebe muita água" | Possível diabetes ou doença renal |
| "O pelo parece opaco" | Deficiência nutricional ou hipotiroidismo |
| "Perdeu o interesse em brincar" | Dor ou fadiga sistémica |
| "Lame muito as patas" | Alergias, infeção ou dor articular |
A regra de ouro: qualquer mudança no comportamento habitual do seu cão merece uma consulta veterinária.
2. Doença periodontal: o inimigo na boca
A doença periodontal é, de longe, a afecção mais comum e subestimada em cães. Os números falam por si:
- 80% dos cães com mais de 3 anos apresenta algum grau de doença periodontal
- Em cães de raças pequenas (Yorkshire, Chihuahua, Caniche), a incidência ultrapassa os 85%
- É a causa número 1 de perda prematura de dentes em cães
O que é exatamente?
Começa com a acumulação de placa bacteriana. Se não for removida, mineraliza-se e transforma-se em tártaro. As bactérias infiltram-se sob a linha das gengivas, causando inflamação (gengivite), infeção e, eventualmente, destruição do tecido de suporte do dente.
Sinais que passam despercebidos
- Halitose (mau hálito): Não é "hálito normal de cão". Se notar um cheiro forte, há infeção ativa.
- Salivação excessiva ou babas com sangue
- Mastigar de um só lado ou deixar cair a comida
- Gengivas vermelhas, inflamadas ou que sangram ao toque
- Dentes soltos ou ausentes (em fases avançadas)
- Sangue em brinquedos de mastigar (como chifres ou ossos)
A ligação cardíaca (o que poucos sabem)
A doença periodontal não é "apenas um problema de dentes". A bacteriemia (bactérias que entram na corrente sanguínea a partir da boca infetada) pode afetar órgãos vitais:
| Órgão afetado | Possível consequência |
|---|---|
| Coração | Endocardite bacteriana, insuficiência valvular |
| Rins | Nefrite, doença renal crónica |
| Fígado | Hepatite, abscessos hepáticos |
| Pulmões | Pneumonia por aspiração de bactérias orais |
Prevenção: o que realmente funciona
- Escovagem dentária diária: É o gold standard. Use pasta dentária canina (nunca pasta humana, contém xilitol que é tóxico).
- Snacks dentários certificados: Procure o selo VOHC (Veterinary Oral Health Council).
- Brinquedos concebidos para limpeza dentária: Kongs com textura, cordas, brinquedos de borracha com sulcos.
- Limpezas profissionais anuais: Sob anestesia geral segura (a anestesia moderna tem riscos mínimos em cães saudáveis).
- Aditivos para água: Soluções como Aquadent ou Clenz-a-dent que reduzem a placa.
⚠️ Mito perigoso: "Os ossos naturais limpam os dentes." FALSO. Ossos cozinhados estilhaçam e podem perfurar o intestino. Ossos crus podem fraturar dentes. Consulte sempre o seu veterinário.
3. Displasia da anca: quando andar dói
A displasia da anca é uma malformação da articulação coxofemoral onde a cabeça do fémur não encaixa corretamente na cavidade da anca. Em vez de uma articulação esférica que se move suavemente, há um movimento anormal que desgasta a cartilagem, causa inflamação e, com o tempo, osteoartrite.
Raças com maior predisposição
| Risco muito alto | Risco alto | Risco moderado |
|---|---|---|
| Pastor Alemão | Golden Retriever | Labrador Retriever |
| Rottweiler | São Bernardo | Boiadeiro de Berna |
| Mastim Napolitano | Gran Danois | Chow Chow |
| Bulldog Inglês | Bulldog Francês | Cocker Spaniel |
| Pug / Carlin | Shar Pei | Pastor Belga |
No entanto, qualquer raça pode desenvolvê-la, incluindo cães mestiços e raças pequenas.
Sinais subtis que deve conhecer
A displasia nem sempre se manifesta como a clássica "claudicação evidente". Os sinais precoces são muito mais subtis:
- "Coelho saltitão": O cão move ambas as patas traseiras juntas ao trotar (movimento de coelho).
- Dificuldade em levantar-se: Especialmente após períodos de repouso.
- Intolerância ao exercício: Cansa-se mais rápido do que antes nos passeios.
- Passo mais curto nas patas traseiras: Reduz a passada para minimizar a dor.
- Estalidos articulares (crepitação): Som audível ao mover as ancas.
- Atrofia muscular: Músculos menos desenvolvidos nos quartos traseiros.
- Postura "sentado de rã": Uma ou ambas as patas traseiras estendem-se para os lados ao sentar.
- Dificuldade em subir escadas ou saltar para o carro
Diagnóstico
A confirmação é feita através de radiografias com sedação ou anestesia ligeira. O veterinário avaliará a laxidez articular e o grau de artrose. Existem programas de certificação como o da OFA (Orthopedic Foundation for Animals) ou o PennHIP, que oferecem avaliações mais precisas do risco.
Opções de manejo
| Abordagem | O que inclui |
|---|---|
| Controlo de peso | O fator mais importante. Menos peso = menos pressão nas articulações. |
| Suplementos | Glucosamina, condroitina, MSM, ómega-3 (EPA/DHA) |
| Fisioterapia | Hidroterapia (passadeira aquática), massagens, exercícios de baixo impacto |
| Analgésicos | AINEs caninos (carprofeno, meloxicam) sob prescrição veterinária |
| Tratamento regenerativo | Plasma rico em plaquetas (PRP), células estaminais, condroprotetores injetáveis |
| Cirurgia | Osteotomia pélvica tripla (TPO) em jovens, substituição total da anca (STA) em adultos |
💡 Conselho prático: Para raças predispostas, um check-up radiográfico da anca aos 12-18 meses pode detetar displasia precoce antes do aparecimento dos sintomas clínicos.
4. Hipotiroidismo: quando a tiroide adormece
O hipotiroidismo é uma das doenças endócrinas mais frequentes em cães, mas também uma das mais subdiagnosticadas porque os seus sintomas se confundem facilmente com "o cão está a ficar mais velho" ou "é porque é calmo".
Ocorre quando a glândula tiroide não produz hormonas tiroideas suficientes (T3 e T4), o que abranda o metabolismo do cão.
O perfil do "cão hipotiroideu típico"
- Idade: 4-10 anos
- Raças mais afetadas: Golden Retriever, Doberman, Dachshund, Cocker Spaniel, Setter Irlandês, Gran Danois, Boxer
- Esterilização: As fêmeas esterilizadas têm maior risco
Sintomas: o que parece preguiça e é doença
| Sintoma | O que parece | O que realmente é |
|---|---|---|
| Apatia e letargia | "É um cão calmo" | Metabolismo abrandado |
| Aumento de peso sem mudar dieta | "Deve estar a comer muito" | O corpo queima menos calorias |
| Perda de pelo simétrica | "Muda normal ou alergia" | Enfraquecimento da pelagem, especialmente no tronco |
| Pele escura e espessada | "Sujidade normal" | Hiperpigmentação por desequilíbrio hormonal |
| Cauda de "rato" | "Está a perder pelo" | Alopecia na cauda, muito característica |
| Infeções de ouvido recorrentes | "Tem os ouvidos sensíveis" | A pele hipotiroideia é mais vulnerável |
| Intolerância ao frio | "É friorento" | O metabolismo baixo gera menos calor corporal |
| Frequência cardíaca baixa | "É um cão atlético" | Menor atividade metabólica geral |
Como se diagnostica?
O diagnóstico requer uma análise de sangue específica que mede:
- T4 total e T4 livre (por diálise de equilíbrio — o método mais preciso)
- TSH canina (hormona estimulante da tiroide): quando elevada e a T4 está baixa, confirma o diagnóstico
- Perfil bioquímico completo: para descartar outras condições concomitantes
⚠️ Importante: O diagnóstico não deve basear-se apenas na T4 total, pois pode estar falsamente baixa por outras doenças (eutiroideu doente). É sempre necessário um painel tiroideu completo.
Tratamento: simples mas para toda a vida
A boa notícia é que o hipotiroidismo tem um tratamento simples, seguro e económico: levotiroxina sódica, administrada por via oral duas vezes ao dia.
- Os sintomas melhoram notavelmente em 4-6 semanas
- A pelagem recupera completamente em 3-4 meses
- Requerem controlos sanguíneos periódicos (a cada 6-12 meses) para ajustar a dose
O prognóstico é excelente: os cães com hipotiroidismo bem controlado vivem uma vida normal e têm a mesma esperança de vida que um cão saudável.
5. Diabetes canina: o assassino silencioso do pâncreas
A diabetes mellitus em cães é uma doença cada vez mais frequente. Estima-se que 1 em cada 100 cães a desenvolverá, e a incidência vai aumentando paralelamente à epidemia de obesidade canina.
Existem dois tipos:
- Diabetes tipo I (insulino-dependente): O pâncreas não produz insulina. É a mais comum em cães (>90% dos casos).
- Diabetes tipo II (resistência à insulina): Menos comum em cães; o corpo produz insulina mas as células não respondem adequadamente.
Os 3 sinais cardinais que nunca deve ignorar
Os veterinários chamam-lhes os "3 P's" da diabetes:
- Polidipsia: Bebe muito mais água do que o normal. Se tiver de encher o bebedouro várias vezes ao dia, algo se passa.
- Poliúria: Urina com muita frequência e em grandes quantidades. Pode haver "acidentes" em casa mesmo estando treinado.
- Polifagia: Come com voracidade mas perde peso. O corpo não consegue usar a glucose como energia, por isso queima gordura e músculo.
Sinais adicionais
- Cataratas diabéticas: Desenvolvem-se rapidamente (dias ou semanas). O cristalino torna-se opaco e esbranquiçado.
- Letargia e fraqueza
- Infeções urinárias recorrentes
- Vómitos e desidratação (em fases avançadas)
- Cetoacidose: Emergência médica. Respiração rápida, hálito com cheiro a acetona, fraqueza extrema.
Que cães têm maior risco?
| Fator de risco | Explicação |
|---|---|
| Obesidade | Aumenta a resistência à insulina |
| Idade | Mais comum em cães de 7-12 anos |
| Raça | Samoyedo, Caniche, Schnauzer miniatura, Beagle, Pug |
| Fêmeas não esterilizadas | As hormonas do cio interferem com a insulina |
| Pancreatite anterior | Danifica as células produtoras de insulina |
Manejo e tratamento
A diabetes canina gere-se, não se cura. Mas com o tratamento adequado, os cães podem viver anos com boa qualidade de vida.
- Insulina injetável: Geralmente duas vezes ao dia (por exemplo, insulina NPH ou detemir canina).
- Dieta específica: Rica em fibra solúvel e hidratos de carbono complexos para estabilizar a glucose.
- Exercício regular e consistente: Mesma intensidade todos os dias.
- Monitorização em casa: Glucoseiros de uso veterinário (AlphaTrak, PetTest) para medir glucose capilar.
- Esterilização: Em fêmeas diabéticas, reduz a flutuação hormonal que interfere com a insulina.
💡 Conselho: Se o seu cão beber mais de 100 ml/kg/dia (um cão de 20 kg bebe mais de 2 litros por dia) ou tiver de urinar à noite, peça uma análise de sangue e urina para descartar diabetes.
6. Doença renal crónica: o ladrão silencioso de anos de vida
A doença renal crónica (DRC) é uma das causas mais frequentes de morte em cães geriátricos. Caracteriza-se pela perda progressiva e irreversível da função dos rins.
O mais traiçoeiro: os rins têm uma reserva funcional massiva. Um cão pode perder até 75% da função renal antes de mostrar sintomas evidentes.
Porque é tão silenciosa?
Os rins filtram resíduos do sangue, regulam eletrólitos e produzem hormonas essenciais (como a eritropoietina, que estimula a produção de glóbulos vermelhos). Quando falham:
- As toxinas acumulam-se lentamente no sangue (uremia)
- O corpo adapta-se gradualmente, mascarando os sintomas
- O dano é irreversível quando detetado
Fatores de risco
- Idade avançada: Mais de 30% dos cães com mais de 12 anos têm algum grau de DRC
- Raças predispostas: Cavalier King Charles Spaniel, Cocker Spaniel, Golden Retriever, Pastor Alemão, Yorkshire Terrier
- Doença periodontal severa: As bactérias orais danificam os rins
- Ingestão de tóxicos: Uvas, passas, etilenoglicol (anticongelante), AINEs humanos como ibuprofeno
- Infeções urinárias recorrentes não tratadas
Os sinais que aparecem (tarde demais)
| Estádio | Sinais | Função renal remanescente |
|---|---|---|
| Estádio 1 | Sem sintomas detetáveis | >90% |
| Estádio 2 | Aumento ligeiro de sede e urina | 75-90% |
| Estádio 3 | Sede e urina notórias, perda de peso, pelo opaco | 25-75% |
| Estádio 4 | Vómitos, úlceras na boca, hálito urémico, anemia severa | <25% |
Sintomas detalhados de fases tardias:
- Halitose com cheiro a amoníaco: Um clássico da uremia
- Úlceras orais e língua escura
- Vómitos e diarreia persistentes
- Anemia: Gengivas pálidas, fraqueza
- Desidratação crónica: Embora beba muita água
- Diminuição do apetite até anorexia total
A importância dos check-ups anuais
Aqui está o ponto crítico: a DRC deteta-se com análises de sangue e urina, não com observação em casa.
Os marcadores chave:
- Creatinina elevada: Indica que os rins não filtram bem
- BUN (azoto ureico) elevado: Outra toxina que se acumula
- UPC (relação proteína/creatinina na urina): Proteína na urina = dano renal
- SDMA (dimetilarginina simétrica): Marcador mais precoce que a creatinina; deteta DRC até 18 meses antes
⚠️ Recomendação: A partir dos 8 anos, o seu cão deve ter uma análise de sangue e urina completa pelo menos duas vezes por ano. A partir dos 12, a cada 6 meses.
Tratamento
Embora não tenha cura, o tratamento precoce pode:
- Retardar a progressão significativamente (anos de boa qualidade de vida)
- Dieta renal: Baixa em fósforo e proteínas de alta qualidade
- Fluidoterapia subcutânea: Em casa, sob supervisão veterinária
- Medicamentos: Inibidores da ECA (enalapril), antieméticos, protetores gástricos
- Suplementos: Ómega-3 (EPA/DHA), probióticos renais (Azodyl)
- Manejo da anemia: Eritropoietina recombinante se necessário
7. Cancro: a realidade que nenhum dono quer enfrentar
O cancro é uma das principais causas de morte em cães. As estatísticas são impactantes:
- 1 em cada 4 cães desenvolverá cancro na sua vida
- Em cães com mais de 10 anos, quase 50% morrerá de cancro
- Os cães desenvolvem cancro ao dobro da taxa dos humanos (em parte porque não temos medidas de deteção precoce equivalentes)
Tipos mais comuns
| Tipo | Prevalência | Raças com maior risco |
|---|---|---|
| Tumores mamários | 25-50% de tumores em fêmeas não esterilizadas | Todas as raças |
| Linfoma | 20% de tumores malignos | Golden Retriever, Boxer, Rottweiler |
| Mastocitoma | 16-21% de tumores cutâneos | Boxer, Pug, Bulldog, Boston Terrier |
| Osteossarcoma | 5% de tumores, mas muito agressivo | Grandes e gigantes (Gran Danois, Rottweiler) |
| Hemangiossarcoma | 5-7% | Pastor Alemão, Golden Retriever, Labrador |
| Melanoma maligno | 4-6% | Cães com pigmentação escura |
Sinais que nunca deve ignorar (ABCDE do cancro canino)
O acrónimo ABCDE ajuda a lembrar o que deve verificar:
- A – Assimetria: Uma mama maior que a outra, uma extremidade mais grossa
- B – Bultos: Qualquer massa nova, especialmente se crescer rápido, estiver fixa ao tecido ou doer à palpação
- C – Alterações na pele: Feridas que não cicatrizam em 2 semanas, pintas que mudam de forma, cor ou tamanho
- D – Dor: Claudicação persistente que não responde a anti-inflamatórios, dor ao tocar certas zonas
- E – Estado geral: Perda de peso inexplicável, perda de apetite, letargia profunda, vómitos crónicos
Sinais adicionais específicos
- Sangramento: Sangue na urina, fezes negras (melena), vómito com sangue ou com borras de café
- Dificuldade em respirar: Tosse persistente (especialmente em raças não braquicefálicas), respiração ruidosa
- Dificuldade em defecar ou urinar: Obstipação ou esforço excessivo
- Cheiro invulgar: Tumores necróticos ou infeções secundárias podem gerar mau cheiro localizado
- Convulsões: Especialmente se aparecerem pela primeira vez num cão adulto ou geriátrico
Pode prevenir-se?
A prevenção absoluta do cancro não existe, mas há medidas que reduzem significativamente o risco:
- Esterilização precoce: Reduz drasticamente o risco de tumores mamários (em fêmeas esterilizadas antes do primeiro cio, o risco é <0.5% vs 25% em não esterilizadas)
- Manter um peso saudável: A obesidade está associada a maior incidência de certos tipos de cancro
- Evitar carcinogéneos: Fumo de tabaco, pesticidas, herbicidas, amianto
- Dieta de qualidade: Sem corantes artificiais nem conservantes potencialmente cancerígenos
- Check-ups veterinários regulares: Palpação de gânglios linfáticos, auscultação, análises de sangue
💡 Dado para recordar: O diagnóstico precoce é o fator mais importante no prognóstico do cancro canino. Um tumor mamário detetado quando mede <1 cm tem 90% de probabilidade de ser benigno ou tratável. Um detetado quando mede >5 cm tem um prognóstico muito mais reservado.
8. Checklist de autoexame mensal: tocar, cheirar, olhar
A melhor arma contra as doenças silenciosas é a deteção precoce. Este exame mensal não substitui o veterinário, mas ajudá-lo-á a detetar alterações suspeitas.
Dedique 15 minutos uma vez por mês. Faça-o num ambiente tranquilo, com o seu cão relaxado. Recompense-o com carícias e snacks para que associe a algo positivo.
📋 Checklist passo a passo
👀 OLHAR (inspeção visual)
- Olhos: Estão brilhantes e simétricos? Há vermelhidão, secreção, opacidade ou assimetria?
- Ouvidos: Estão limpos e rosados? Há vermelhidão, mau cheiro, excesso de cera escura?
- Boca: As gengivas são rosadas (não pálidas, vermelhas, azuladas ou com manchas)? O hálito não é ofensivo? Os dentes estão limpos, sem tártaro visível?
- Nariz: Está húmido e simétrico? Há secreção (transparente, esverdeada, sanguinolenta)?
- Pelagem e pele: O pelo é brilhante e uniforme? Há zonas sem pelo, caspa excessiva, vermelhidão ou erupções?
- Peso e silhueta: Consegue ver a cintura de cima? As costelas palpitam-se sem excesso de gordura? Há inchaço abdominal?
- Movimento: Anda e trota com normalidade? Há claudicação, rigidez, movimentos estranhos?
- Fezes e urina: As fezes têm consistência normal? Urina com frequência normal? Há sangue ou muco?
🤚 TOCAR (palpação sistemática)
- Cabeça e pescoço: Palpe suavemente procurando bultos, inflamação ou zonas sensíveis. Verifique as glândulas salivares e a mandíbula.
- Gânglios linfáticos: Palpe debaixo da mandíbula (submandibulares), à frente do ombro (pré-escapulares) e atrás do joelho (poplíteos). Devem ser do tamanho de uma ervilha e móveis.
- Tórax e abdómen: Deslize as mãos pelo peito e barriga. Há bultos, massas, zonas duras ou sensíveis?
- Ancas e articulações: Flexione e estenda suavemente cada articulação. Há estalidos, resistência ou sinais de dor?
- Mamas (em fêmeas): Palpe cada glândula mamária procurando bultos, nódulos ou assimetria.
- Testículos (em machos inteiros): Ambos devem estar presentes, simétricos e sem bultos.
- Almofadas e patas: Verifique entre os dedos, as almofadas em busca de fissuras, corpos estranhos, inflamação ou feridas.
- Coluna vertebral: Deslize os dedos ao longo da coluna. Há zonas que se curvam, pontos dolorosos ou curvaturas anormais?
👃 CHEIRAR (deteção olfativa)
- Hálito: Cheira a amoníaco (renal), acetona (diabetes/cetoacidose), ou podre (dentário/infeção)?
- Ouvidos: Há cheiro a levedura ou infeção?
- Pele: Alguma zona cheira diferente (infeção, tumor necrótico)?
- Urina: Tem cheiro muito forte, adocicado ou invulgar?
📝 REGISTO
Mantenha um diário mensal simples (foto + notas). Assim poderá detetar alterações subtis que de outra forma passariam despercebidas.
Data: DD/MM/AAAA Peso: XX.X kg Achados positivos: [nada a reportar / bulto em X / claudicação Y] Próxima revisão veterinária: DD/MM/AAAA
Tabela rápida de sintomas vs. possíveis causas
Esta tabela ajudá-lo-á a orientar-se perante qualquer sinal suspeito. Não substitui o diagnóstico veterinário, mas dá-lhe um guia do que perguntar ao seu veterinário.
| Sintoma | Possíveis causas | Urgência? |
|---|---|---|
| Bebe e urina muito | Diabetes, doença renal, Cushing, infeção urinária | 🔴 Alta |
| Perda de peso com bom apetite | Diabetes, hipertiroidismo (raro em cães), parasitas, má absorção | 🔴 Alta |
| Perda de peso sem apetite | Cancro, doença renal, doença hepática, pancreatite | 🔴 Alta |
| Mau hálito persistente | Doença periodontal, doença renal (cheiro a amoníaco), cetoacidose (cheiro adocicado) | 🟡 Média |
| Pele escura e perda de pelo | Hipotiroidismo, Cushing, alergias crónicas, infeções fúngicas | 🟡 Média |
| Tosse persistente (sem constipação) | Colapso traqueal, doença cardíaca, cancro pulmonar, bronquite | 🟡 Média |
| Claudicação intermitente | Displasia da anca, artrite, ligamento cruzado, panosteíte (jovens) | 🟡 Média |
| Bulto que cresce (qualquer parte) | Tumores benignos ou malignos, abscessos, quistos, reação à vacina | 🟡 Média |
| Sangue na urina | Infeção urinária, cálculos, cancro da bexiga, trauma | 🟠 Alta |
| Vómitos recorrentes | Doença renal, pancreatite, corpo estranho, intolerância alimentar | 🟠 Alta |
| Convulsões (primeira vez em adulto) | Epilepsia, tumor cerebral, intoxicação, doença metabólica | 🔴 Urgente |
| Gengivas pálidas ou azuladas | Anemia, choque, intoxicação, doença cardíaca | 🔴 Urgente |
| Dificuldade respiratória | Edema pulmonar, pneumonia, tumor, doença cardíaca | 🔴 Urgente |
| Abdómen distendido e duro | Torção gástrica (GDV), ascite, tumor abdominal | 🔴 Urgente |
Legenda de urgência:
- 🟡 Média: Marque uma consulta nos próximos dias
- 🟠 Alta: Consulte nas próximas 24-48 horas
- 🔴 Urgente: Dirija-se ao veterinário imediatamente (emergência)
Conclusão: o conhecimento é a melhor prevenção
As doenças silenciosas são traiçoeiras precisamente por isso: porque não gritam. Mas como dono atento, pode aprender a ouvir o silêncio.
Três compromissos que mudarão a vida do seu cão:
- Um check-up veterinário completo a cada 6-12 meses (análises de sangue, urina e revisão física completa)
- Um autoexame mensal seguindo o checklist que lhe demos
- Confiar na sua intuição: Se sentir que algo não está bem, provavelmente tem razão. Ninguém conhece o seu cão melhor do que você.
Como diz um velho provérbio veterinário: "O melhor tratamento para uma doença silenciosa é descobri-la antes de ela falar."
Tem dúvidas sobre a saúde do seu cão? Partilhe este artigo com outros donos responsáveis e programe uma revisão veterinária se notar algum dos sintomas mencionados. No DogStar Club acreditamos que um dono informado é o melhor remédio.
Fontes consultadas:
- American Veterinary Medical Association (AVMA) — Guias de saúde canina
- Orthopedic Foundation for Animals (OFA) — Displasia da anca
- Veterinary Oral Health Council (VOHC) — Saúde dental
- Veterinary Information Network (VIN) — Medicina interna canina
- Journal of Veterinary Internal Medicine — Estudos sobre DRC e diabetes
- Morris Animal Foundation — Estatísticas de cancro canino
- WSAVA Guidelines — Guias de vacinação e prevenção